Desafio Praias e Trilhas
Muitas vezes a emoção, a raiva o medo a gana nós faz sair da inércia e nos coloca em movimento, mas só quando estamos motivados conseguimos que esse movimento se torne um passo, e esse passo se torne uma caminhada, e essa caminhada vire uma viagem, e essa viagem se torne um mundo de possibilidades e descobertas muitas vezes boas e outras ruins. A vida é feita para quem se movimenta, não tem espaço aquele que permanece parado com medo de errar, chorar, cair, amar, ou para aquele que tem medo de viver, foi por isso que eu decidi retornar ao Desafio Praias e Trilhas.Praias e Trilhas é considerada a Prova mais difícil do Brasil no gênero, acontece em Florianópolis e tem a distancia de 84 km que é feito em dois dias em terrenos totalmente inóspitos para pratica da corrida. Para alguns atletas que se inscreveram era só mais uma prova para acrescentar no Currículo, para outros, uma historia para ser contada na roda de amigos, mas para mim era tentar encontra algo que eu havia perdido no ano anterior.No ano passado, em 2008, decidi com minha namorada tentar fazer o desafio, não conhecíamos nada a respeito. Sofremos demais durante o percurso, me machuquei na trilha e minha namorada foi me carregando até o ponto de apoio no qual eu apaguei de dor, Ela conseguiu completar o primeiro dia aos trancos e barrancos, pois teve que fazer muita força para me levar. Eu me arrependo muito de ter pedido para ela terminar o primeiro dia sozinha, pois quando ela chegou e não me encontrou no hotel ela sentiu um vazio enorme e eu quando acordei e não a vi me senti sem chão.Finalmente no fim da tarde nos encontramos e sabíamos que esse sentimento intenso tinha nos acrescentado algo indescritível.Os treinamentos começaram novamente em Junho de 2008, Samuel e Pedro também de Brasília decidiram fazer a prova. A companhia deles ajudou demais, são pessoas bastante experientes em corrida e tinham muita coisa boa para agregar.Confesso que ainda estava morrendo de medo, mas sabia que tinha que enfrentar esse fantasma que me perseguia. Alguns colegas me falavam para não ter medo, mas quem não tem medo de nada e porque não tem nada a perder, e eu tenho pessoas que me amam e precisam de mim, e seria muito egoísmo da minha parte deixa-las para apenas tentar provar algo.A cada edição desta prova acabo descobrindo coisas incríveis, quem já participou sabe que são momentos e lugares únicos, é tudo muito diferente do que uma pessoa numa vida normal pode vivenciar.
Rumo a Florianópolis.
No sábado a largada da Corrida foi no extremo Sul da Ilha, partimos às 07h00min rumo a Praia da Joaquina. As trilhas pareciam rios, tinham lugares que íamos deslizando num incrível tobogã de lama.
Na parte da praia a areia era muito fina, quase impossível de correr, mas tinha que aproveitar para tirar a vantagem, pois estava com dificuldade em me locomover nas trilhas molhadas.Com 3hora e 30 minutos de prova chego à trilha da Lagoinha do Leste, o lugar parece com aqueles cenários de filme que achamos que nunca vamos conhecer na vida.Acabei o primeiro dia bem, com 6horas e 07 minutos. Pedro e Samuel também tinha feito uma ótima prova. Tomamos um merecido banho e fomos juntos para o restaurante repor as energias.Não posso esquecer de falar do Bomfim, também de Brasília. Foi um exemplo de superação, pois largou sentindo dores e consegui completar a prova.No segundo dia, largamos novamente às 07h00min. Já começamos nas Dunas da Joaquina, realmente é muito estanho correr no meio daquele tanto da areia.Na altura do km 9 alcançamos o ponto alto da corrida, lá de cima toda beleza da ilha foi revelada aos participantes, no cume da montanha, tínhamos a visão de 360° de toda ilha. Foi incrível, inesquecível.Durante o período de treinamento eu havia prometido que mesmo estando bem, se sentisse que estivesse colocando em risco a minha vida, a corrida não faria sentido, iria parar, pois não iria agregar nada para minha vida pessoalMas as coisas acontecem muito rápidas, é como uma criança pequena que sobe ligeiramente na arvore levada pela alegria e emoção e quando chega lá no alto não consegue descer, grita, mas não encontra ninguém para ajudar. Foi isso que aconteceu comigo no segundo dia de prova. Muitas vezes achamos que nos conhecemos bem, mas nesta parte que às vezes nos enganamos. Eu estava bem na parte da areia, me hidratando, administrando meus passos e curtindo a natureza, mas novamente começou o sobe e desce nas trilhas, parecem que alguém de repente havia ligado e mim a chave para acionar as câimbras. No final da prova constatei que não era só comigo, muita gente teve esse problema.Quando eu tentava manter a amplitude da passada, caia de cara na lama, pois a perna travava, mas ai que começou me desespero quando entrei nos COSTÕES, não conseguia voltar e nem prosseguir, estava preso sozinho, entre o mar e uma parede de pedra, sabia que tinha que tentar sair dali, tinha coragem, porém a parte muscular impossibilitava meu deslocamento. Lembro bem de 2 pedras que eu precisava saltar e não podia errar, pois abaixo estava o mar, e uma queda ali não seria algo interessante. Então eu pulei, mas cai numa posição totalmente errada. Fui deslizando em direção a fenda que levava ao precipício, me agarrei forte numa rachadura entre as pedras, que acabou rasgando a luva direita, emprestada pelo Samuel. Feri minha mão esquerda, fiquei muito assustado, pois estava sangrando bastante, já estava sem apoio nas pernas por causa das câimbras e havia ficado com apoio dos membros superiores debilitado. Tirei a luva de uma mão e passei para a outra que estava sangrando, realmente não sei se o sangramento havia parado, pois o barro da luva se misturava com as feridas.Nesta hora pensei muito nas pessoas que eu amo, é estranho, mas no meio daquela situação, sentado naquela pedra fiz algo que não tinha feito nunca nos meus intensos treinamentos, rezei para Deus me enviar alguém para me ajudar. Fechei os olhos comecei a chorar de alegria, lembrei de uma imagem de uma foto minha quando eu tinha 6 anos. Quando eu abro os olhos vejo distante do lado esquerdo o Hugo vindo na minha direção e a Patrícia alguns metros atrás de mim. Tenho certeza absoluta que Deus que enviou essas pessoas para mim, eu já havia 20 minutos atrás desistido da corrida, queria apenas sair dali. Fiquei morrendo de vergonha, havia estragado a prova destas duas pessoas, principalmente do Hugo que me acompanhou até o final sem eu pedir. Não tenho como agradecer o que ele fez para mim.
Fechei o segundo dia com o tempo de 8 horas. Fiquei muito feliz. Meus colegas de Brasília voaram. Pedro com sua experiência em trilhas foi embora logo no começo e o Samuel que tem uma ótima cabeça para provas longas soube dosar muito bem a sua energia, completou a prova abaixo das 13 horas e 15 minutos.O Bomfim que estava machucado, também conseguiu completar a 2ª etapa.Pedi desculpas de coração para a equipe do Hugo que foi totalmente prejudicada por minha causa.Realmente hoje vejo que essa medalha não vale nada, a distancia não vale nada, o que fica é a incrível lembrança de uma pessoa espetacular que eu nunca havia visto na minha vida que me deu muita força.Esse é o espírito da prova, as pessoas se ajudam bastante, pois se não fosse assim seria impossível transpor alguns obstáculos.Estou muito feliz, não apenas de ter completado a prova, mas sim de ter tido a chance de conhecer pessoas fantásticas durante o trajeto..Se me perguntarem se eu penso em fazer esse desafio novamente, a resposta é sim. Já estou com saudades do clima da prova. O hotel onde parecia que todos já se conheciam há anos. Os treinamentos aqui em Brasília que foram incríveis.Enfim seu continuar contando, você não vai ter o prazer em descobrir sozinho.
Desculpa pelos erros, tentei passar o máximo de emoção
Um grande abraço a todos
RENATO MARANHÃO DOS SANTOS
BRASÍLIA DF